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PORTAL DE AGOSTINHO DA SILVA

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O FILOSOFO DE PORTUGAL

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O MESOLÍTICO

O Mesolítico (pedra intermediária) é um período da pré-história situado entre o Paleolítico (Idade da Pedra Lascada) e o Neolítico, (idade da pedre polida), com duração razoável apenas em algumas regiões do mundo onde não houve transição directa entre os dois períodos citados. As regiões que sofreram maiores efeitos das glaciações tiveram Mesolíticos mais evidentes.
Iniciou-se com o fim do Pleistoceno, há cerca de 10 mil anos, e terminou com a introdução da agricultura, em épocas que variam de acordo com a região.

Culturas mesolíticas são as que surgem na transição entre as que ainda representam uma economia de produção. Um fenómeno que aparece com carácter geral nas culturas mesolíticas é a tendência para as formas microlíticas e geométricas na indústria lítica e o desaparecimento gradual da indústria óssea. Neste período intermediário, o homem conseguiu dar grandes passos rumo ao desenvolvimento e à sobrevivência de forma mais segura. O domínio do fogo foi o maior exemplo disto. Com o fogo, o ser humano pôde espantar os animais perigosos, cozinhar a carne e outros alimentos, iluminar a sua habitação, além de conseguir calor nos momentos de frio intenso. Estas culturas não surgem em todo o lado ao mesmo tempo nem têm idêntica duração.

Na Europa continental e nórdica, o desenvolvimento das culturas mesolíticas, procede da degradação gradual da cultura magdalenense do Paleolítico final, à medida que as novas condições climáticas originavam uma diminuição e transformação da fauna ao ritmo da diminuição progressiva do glaciar escandinavo. As culturas mesolíticas do norte da Europa são em grande parte tributárias da anterior tradição magdalenense.
Em França, o processo de degradação do Paleolítico dá lugar ao aparecimento da cultura azilense na zona pirenaica, com extensão pela zona cantábrica da Península Ibérica, cultura de transição sem grandes novidades e que continua as antigas técnicas paleolíticas.

No entanto, em França podem-se encontrar vestígios da cultura tardenoisense, cuidado com os mortos e cultura dos crânios, nome derivado de Tardenois, onde se situa o jazigo de Fère, característica dos terrenos baixos e zonas de dunas. No Mesolítico adquirem grande importância os concheiros portugueses das margens do Tejo, onde está assente uma população que vai evoluindo lentamente e na qual aparecem já muitos elementos “raciais” mistos. Os principais jazigos, para além dos Concheiros de Muge são: Cabeço da Amoreira,  Cova da Onça e Fonte do Padre Pedro. A este ciclo cultural pertencem também as oficinas de trabalho manual de sílex, ao ar livre, que existem na região tarraconense.

O mesolítico assistiu também a um novo tipo de caçador recolector, o caçador complexo, que na ausência da mega fauna do Pleistocénico explorou um novo nicho, que consistia em animais de pequeno e médio porte como o veado, o gamo as lebres, etc... Para complementar a caça, as comunidades mesolíticas passaram a fazer acampamentos especializados com actividades como o marisqueiro e/ou a pesca. Os concheiros do Tejo são o que resta de alguns destes acampamentos. O armazenamento começa também a ocorrer neste período, bem como uma espécie de sedentarização sazonal, ou seja, acampamentos fixos com alguns entrepostos especializados utilizados durante uma estação.
FERRAMENTAS NO NEOLÍTICO
O mesolítico, no que toca à indústria lítica pautou-se pela utilização de micrólitos, pedra lascada de dimensão muito reduzida que eram incorporadas com componentes de madeira para fazer instrumentos compósitos como flechas e lanças.
Alguns arqueólogos defendem que as raízes das primeiras sociedades camponesas se encontram precisamente nestas comunidades de caçadores/recolectores.
A arte no Mesolítico foi muito mais madura e estilizada, uma vez que procedeu as emoções humanas e cores, em oposição aos valores arte paleolítica.
No período Mesolítico, as pessoas eram muito mais interactivas e realizavam diversos eventos sociais, factos que foram meticulosamente capturados nas suas pinturas rupestres.  Esses desenhos representam algumas pessoas com flechas, em algum tipo de ritmo, talvez realizando um ritual diário de dança.

  

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A REVOLUÇÃO NEOLÍTICA


Revolução Neolítica é a expressão criada pelo arqueólogo inglês Gordon Childe para designar o movimento dado na Pré-História, que marcou o fim dos povos nómadas e o início da sedentarização do homo sapiens, com o aparecimento das primeiras vilas e cidades. No Período Paleolítico, os grupos nómadas não possuíam moradias fixas. No Neolítico, as sociedades humanas desenvolveram técnicas de cultivo agrícola e passaram a ter condições de armazenar alimentos o que levou a que grupos humanos se fixassem por mais tempo numa determinada região e se deslocassem com menor frequência.

Essa foi a fase da evolução cultural em que se deu a passagem do ser humano "de parasita a interveniente activo na natureza". Foi uma transformação que levou o homo sapiens a fixar-se definitivamente num local e a adapta-lo às suas necessidades, tendo por base uma economia produtora. O processo de transformação da relação do ser humano com os animais e plantas proporcionou um maior controle das fontes de alimentação.
Durante milhares de anos os grupos humanos viveram deslocando-se de um lugar para o outro, procurando o alimento necessário para a sua sobrevivência. Em outras palavras, eram nómadas. Até o final do período Paleolítico, os humanos dependiam da caça de animais e da colecta de frutos e vegetais.

O nomadismo na economia recolectora era motivado pela deslocação das populações que, na procura constante de alimentos, acompanhavam as movimentações dos próprios animais que pretendiam caçar, procuravam os locais onde existiam frutos ou plantas a recolher ou necessitavam pars se defender das condições climáticas ou dos predadores. Este tipo de nomadismo manteve-se entre as comunidades que persistiram no modo de produção recolectora.

Os instrumentos fabricados por esses grupos eram, na maioria, de pedra e osso. Alguns eram lascados para formar bordas cortantes e facilitar a obtenção de alimentos e de defesa. A alimentação era composta basicamente de frutos, raízes, ervas, peixes e pequenos animais capturados com a ajuda de armadilhas rudimentares.
No Período Paleolítico, as pessoas abrigavam-se em cavernas (trogloditismo) ou em espécies de choupanas feitas de galhos e cobertas de folhas. A sociedade é comunal, já possuem uma certa organização social e a família já tem importância. Descobrem e dominam o fogo, possuem uma linguagem rudimentar, indícios de rituais funerários e desenvolvem as primeiras práticas de magia, devido à descoberta do fogo.

No Paleolítico Médio, o humano fez uma descoberta muito importante: o fogo, em cujo período surgem os primeiros concheiros, encontrados principalmente nas regiões litorais da América do Sul, devido ao facto do homem ser nómada, e se alojar num determinado local até se esgotarem os alimentos; amontoavam conchas, fogueiras e restos de animais. Eram também nesses locais que enterravam os mortos e junto com estes os seus pertences e adornos: colares, vestes, ferramentas e cerâmicas.
A sociedade era formada por pequenos clãs, que dividiam as tarefas entre os sexos e idades. Havia apenas um líder, que servia como conselheiro. Este poderia ser o mais forte ou o mais velho. Do nomadismo resultavam doenças frequentes, cansaços e obrigação de descanso aos necessitados. Os índices demográficos eram baixos e estáveis; a média da idade de sobrevivência era por volta dos 30 anos.

A primeira actividade agrícola ocorreu entre 9000 e 7000 a.C. em certos lugares privilegiados da Sírio-palestina, no Sul da Anatólia e no Norte da Mesopotâmia. Aconteceu também na Índia, há 8 mil anos; na China há 7 mil, na Europa há 6.500; na África Tropical há 5 mil anos e na América, México e Peru, há cerca de 4.500 anos. Em 3000 a.C., a revolução neolítica já tinha atingido a Península Ibérica e grande parte da Europa.
Os produtos cultivados variavam de região para região, mas geralmente consistiam em cereais:  trigo; cevada e milho. Raízes: batata-doce;  mandioca. O arroz, principalmente nos países asiáticos. O Homem foi aprendendo então a seleccionar as melhores plantas para a semeadura e a promover o enxerto de variedades.

Além dos conhecimentos práticos referentes a tipos de solo, plantas adequadas e épocas de cultivo, foram desenvolvidas invenções importantíssimas e práticas como a cerâmica, a foice, o arado, a roda, o barco à vela, a tecelagem e a cerveja. A condição de nómada começou a ser abandonada bem como o desenvolvimento da agricultura.
Plantar alimentos foi um passo decisivo para o domínio da natureza e para o processo de fixação da sedentarização dos grupos humanos.
Há cerca de 10 mil anos, durante a Pré-história, no período do neolítico ou período da pedra polida, alguns indivíduos, de povos caçadores recolectores notaram que alguns grãos que eram colectados da natureza para a sua alimentação, poderiam ser "semeados" a fim de produzir novas plantas iguais às que os originaram.

As pesquisas têm revelado que as primeiras actividades agrícolas ocorreram na região de Jericó, num grande oásis junto ao mar Morto, há cerca de 12 mil anos. Por meio de difusão ou movimentos independentes, supõe-se que o fenómeno se tenha desenvolvido também na Índia, há 8 mil anos; na China há 7 mil; na Europa há 6.500; na África tropical há 5 mil e na América há 4.500.

Essa prática permitiu o aumento da oferta de alimento, as plantas começaram a ser cultivadas muito próximas uma das outras. Isso porque elas podiam produzir frutos, que eram facilmente colhidos quando maturassem, o que permitia uma maior produtividade das plantas cultivadas em relação ao seu habitat natural. As frequentes e perigosas buscas à procura de alimentos foram abandonadas. Com o tempo, foram seleccionados entre os grãos selvagens, aqueles que possuíam as características que mais interessavam aos primeiros agricultores, tais como tamanho, produtividade e sabor.
No Médio Oriente os agricultores que haviam sido pioneiros na vida sedentária e no cultivo de cereais criaram uma ampla variedade de animais domésticos: ovelhas, cabras e gado bovino. Viajavam rumo aos Balcãs, através da Anatólia, em busca de terras férteis e de boas pastagens.

Por volta de 6.000 a.C., alguns grupos humanos descobriram a técnica de produção de cerâmica pelo aquecimento da argila. Na mesma época aprenderam a converter fibras naturais em fios e estes em tecidos. Aos poucos começaram a trabalhar com metais para produzir instrumentos. Os indivíduos que trabalhavam com cerâmica, metais e tecelagem tornaram-se artesãos. Eram os primeiros sinais de mais uma divisão social do trabalho (antes apenas entre homens e mulheres). A diversidade na produção, a especialização do trabalho e as novas funções na sociedade contribuíram para que algumas comunidades de agricultores se transformassem em vilas e cidades, constituindo o que alguns historiadores chamaram de “Revolução Urbana”.
A sedentarização, causada pela agricultura, provocou uma verdadeira revolução no modo de vida da humanidade. Um dos acontecimentos mais importantes relacionados a isso foi o desenvolvimento das povoações.

Em geral, as vilas desenvolveram-se em regiões onde os solos eram férteis e propícios à agricultura. Elas tinham inúmeras funções. Na América, por exemplo, estavam associadas a cultos religiosos, mas podiam também servir de abrigo para artesãos e de espaço de troca de produtos. Dessa forma, o surgimento das vilas e cidades facilitou a prática do comércio e o desenvolvimento de novas técnicas, como a da olaria e da metalúrgica.
Assim, percebe-se que o processo de consolidação das vilas está associado ao aumento da organização social. Em outras palavras, está relacionado com a prática da religião e do comércio, com o aumento da população e com a diversificação das actividades produtivas.

Uma das mais antigas cidades do mundo é Çatal Huyuk que foi descoberta em escavações no centro sul da Turquia. As casas dessa cidade eram feitas de tijolos e construídas lado a lado, sem espaço de circulação entre elas. O acesso às casas era feito por aberturas nos telhados e os habitantes circulavam de um lugar a outro caminhando sobre as casas.
As escavações realizadas em Çatal Huyuk podem mostrar muito da vida dos grupos humanos que habitaram essa região entre 12 mil e 7 mil anos atrás. A economia da cidade, cuja população era cerca de 5 mil habitantes, baseava-se na agricultura, além de ter importante comércio de pedra vítrea de vulcão, (obsidiana).

A descoberta da cerâmica também foi um grande marco deste momento, bem como assim a arte do domínio do fogo.
Para além da agricultura, a criação de animais foi outro passo muito importante para a alteração do modo de vida das comunidades, pois deu-lhe não só a possibilidade de não ter de se deslocar para obter a carne e peles necessárias à sua alimentação e conforto, mas também o leite e, com a domesticação do boi, uma força de tracção.
A domesticação deve ter surgido espontaneamente em vários locais, resultado da evolução natural de aproximação e observação dos animais no decurso das caçadas. O primeiro animal domesticado foi o cão (o lobo), cuja associação com o homem era simbiótica, seguindo-se animais para a alimentação, como a cabra, o carneiro, o boi e o cavalo.

O aumento da produção criou excedentes e permitiu as trocas de produtos, que deram origem ao comércio de troca. Privativamente a actividade do comércio fez-se de comunidade para comunidade por intermédio dos seus chefes. Pouco a pouco, porém, formou-se um grupo de indivíduos especializados em vender e comprar mercadorias. O comércio, por sua vez, aproximou vendedores e compradores, favorecendo o desenvolvimento das cidades.
Desde o início da Pré-história, o homem tem procurado os rios para se orientar no espaço e obter água. Foi ao longo dos rios que floresceram, no começo da História, as civilizações agrícolas, as primeiras a submeterem o espaço terrestre e a natureza às suas necessidades. Foi junto aos grandes rios da antiguidade que se desenvolveram as civilizações que deram um novo rumo à história da humanidade, por vezes chamadas de Civilizações Fluviais, porque foram os rios o factor decisivo para o desenvolvimento agrícola.

As grandes civilizações fluviais, que eram economicamente dependentes das culturas irrigadas e contavam com uma população numerosa e em grande parte urbanizada, floresceram nas planícies aluviais formadas pelas enchentes de um dos dois grandes rios. Assim, os berços das civilizações: chinesa, indiana, sumério-babilónica e egípcia foram, respectivamente, os rios: Amarelo; Indo; Ganges; Tigre; Eufrates e Nilo.
As primeiras plantações agrícolas deram-se, portanto, nos vales, as regiões férteis que margeiam os rios. Cidades como Çatal Huyuk, Dura Europos, Ur, Urak e muitas outras que, das primeiras sociedades sedentárias, se formaram ao longo dos rios, devido à necessidade da fertilidade do solo para as práticas agrícolas.

Com o surgimento da agricultura, surgiram mudanças não só nos instrumentos de trabalhos e na formação de cidades, mas também nas relações sociais entre os homens. No início, a produção agrícola era um empreendimento familiar: pai, mãe, filhos e filhas de diversas idades, cada qual passou a trabalhar a terra com determinados deveres fixados por tradição.
O investimento de muito trabalho no cultivo da terra, porém, levou ao desejo de posse territorial e à criação do direito de herança. O primogénito herdava a terra e os mais jovens, sem possuírem terras próprias, passavam a servi-lo, ou, então, a servir a outros.
As sociedades dos agricultores e criadores de gado organizaram-se em tribos. A tribo era um grupo maior que a horda. Era constituída por um conjunto de famílias que viviam na mesma região e que provinham de um tronco comum. As famílias eram chamadas de clãs.

A fabricação e o uso de instrumentos de metal provocou o grande salto na produção agrícola. Os novos instrumentos permitiram produzir mais e melhor em menos tempo. Com isso as comunidades primitivas começaram a produzir mais do que necessitavam. Essa produção a mais chama-se: excedente.
Com o aumento da produção apareceu também a propriedade privada de terra, de ferramentas, animais, etc. Instalava-se com isso a desigualdade entre os homens e entre as tribos. Os proprietários passaram a explorar o trabalho dos outros. Surgiu a escravidão. Pela primeira vez, a sociedade dividiu-se em partes opostas: os donos de escravos e os escravos. O mundo passou a ter um novo modo de produção baseada no esclavagismo e em novas relações sociais baseadas na desigualdade.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A MESOPOTÂMIA NO INÍCIO DA HISTÓRIA

A Mesopotâmia, nome grego “mesopotamia” que significa "entre rios" (meso + pótamos - Rio), é uma região de interesse histórico e geográfico mundial. Trata-se de um planalto de origem vulcânica localizado no Médio Oriente, delimitado entre os vales dos rios Tigre e Eufrates, ocupado pelo actual território do Iraque e terras próximas. Os rios desembocam no Golfo Pérsico e a região toda é rodeada por desertos.
Inserida na área do Crescente Fértil - de Lua crescente, precisamente por ter o formato de uma Lua crescente e de ter um solo fértil - é uma região do Médio Oriente excelente para a agricultura, num local onde a maior parte das terras vizinhas eram muito áridas para qualquer cultivo. A Mesopotâmia tem duas regiões geográficas distintas: ao Norte a Alta Mesopotâmia ou Assíria, uma região bastante montanhosa, desértica, desolada, com escassas pastagens, e ao Sul a Baixa Mesopotâmia ou Caldeia, muito fértil em função do regime dos rios, que nascem nas montanhas da Arménia e desaguam separadamente no Golfo Pérsico.

Foi o berço das primeiras civilizações, nomeadamente a civilização suméria e a babilónica. Mesopotâmia foi o nome que os Gregos e, depois, os Romanos atribuíram à região. O Norte, também denominado Alta Mesopotâmia, corresponde à Síria e ao Sudeste da actual Turquia. O Sul, ou Baixa Mesopotâmia, engloba o Iraque. O território ocupado pela actual Mossul e pela Suméria, bem como por Akkad e Babilónia, distribuia-se a sul da Assíria. A zona da Alta Mesopotâmia, uma região profundamente agrícola, apresenta Tell Hassuna como a mais antiga aldeia conhecida, localizada a poucos quilómetros de Mossul.

Os materiais arqueológicos aí exumados são datáveis de cerca de 5000 anos a. C., revelando que as comunidades humanas aí fixadas, que praticavam já a domesticação animal, viviam em casas de barro, de planta rectangular, produzindo utensílios diversos, tais como rocas, projécteis, adereços femininos em barro cozido, enxadas, arado, foices e moinhos líticos. A este período, designado por hassunense, sucedeu o samarrense e, posteriormente, o halafiano, com cerâmicas mais evoluídas. Nos momentos seguintes a Mesopotâmia vai assistir a um desfilar significativo de povos e sucessões hegemónicas.

Primeiro os Sumérios, depois Akkad e o seu império, os Gútios, o império de Ur, o Império Babilónico, os Hurritas e Mitani, os Assírios e, por fim, o Império Neobabilónico. Um dos desenvolvimentos mais importantes na história humana - a emergência das primeiras cidades - teve lugar na Mesopotâmia meridional no quarto milénio a. C., em finais do período Uruk. As primeiras cidades foram o resultado do culminar do aumento das populações e das potencialidades da agricultura que tinham ocorrido desde a adopção da exploração agrícola. Mas, para além do aumento do número de habitantes, as alterações radicais na sociedade, na religião, na política, na experiência intelectual e, sem dúvida, em quase todos os aspectos da vida também contribuíram para o seu desenvolvimento. A vida na árida planície dependia da irrigação, da agricultura e dos contactos comerciais com o exterior e podem ter sido estes requisitos que eventualmente produziram não somente uma administração peculiar e uma técnica organizacional, mas também excedentes económicos suficientes para suportar uma população concentrada em grandes aglomerados. Estes factores, juntamente com a autoridade centralizadora necessária para criar e manter os sistemas de canais, estão directamente associados com o aparecimento das primeiras cidades.

Durante quase todo o terceiro milénio um número de cidades-estados coexistiram e foram finalmente unificadas por Sargão de Acad, em 2300 a.C.. Cada cidade estava sob a protecção de um Deus particular, que "habitava" um magnífico templo com o seu numeroso séquito humano. Estes servidores também desempenhavam um papel económico, já que o templo detinha uma grande parte da terra da cidade. As chuvas eram escassas e imprevisíveis nesta região da Mesopotâmia; as inundações dos rios ocorriam bastante tarde no ano para se poder planear a estação. As colheitas - cevada, sésamo e alhos - eram regadas por um sistema artificial de canais. Carneiros, ovelhas, porcos e restante gado eram também uma fonte de rendimento, permitindo a extracção de lã, que depois era redistribuída em rações aos artesãos.

Foi o crescimento da complexidade da contabilidade do templo que deu origem aos primeiros documentos escritos: as primeiras tabuinhas com pictogramas de Uruk datam de cerca de 3100 a. C. Gradualmente a escrita silábica desenvolve-se - as primeiras obras de literatura datam aproximadamente de 2500 a. C. No entanto, a maior parte da população permaneceu iletrada; a destreza escrita manteve-se nas mãos dos escribas para os quais existiam escolas nos templos. É devido à prática da cópia de documentos nesses estabelecimentos que devemos o nosso conhecimento das tradições destas cidades. É pouco o conhecimento que temos da organização da vida secular nestas primeiras cidades. Existiam certamente escravos e existiam reis dinásticos em meados do terceiro milénio - muitos aparecem nomeados num documento tardio chamado Lista dos Reis Sumérios.

As cidades-estados estavam habitualmente em situações de rivalidade umas com as outras devido aos direitos da terra e da água, resultando em ataques em que levavam tributos e se faziam prisioneiros. As relações também podiam ser amigáveis, com os governantes a presentearem-se ocasionalmente. As fortunas dos Estados individuais aumentavam e diminuíam, mas Nippur e Kish sempre tiveram um domínio cultural. No Sul, a rica cidade de Ur, juntamente com Lagash, dominavam a região. O urbanismo rapidamente se expandiu para lá do seu local de origem, sendo acompanhado pelo rápido crescimento populacional e da agricultura, originando as cidades do vale do Nilo e da planície do Indo. Em dois mil anos, a cidade era um dado adquirido em muitas partes da Eurásia, marcando um passo importante para o mundo moderno.

Os vestígios arqueológicos são limitados e por isso não se pode definir como a organização política e social que dava dentro de algumas dessas primeiras cidades. Uma das fontes de referência para o estudo da Mesopotâmia, não é nenhum dos documentos encontrados nas escavações na região mas sim na bíblia. Nela se fazem referências às cidades de Ur, Nínive, cujo nome significava "bela" e Babilónia . Muitas das histórias presentes no Antigo Testamento são possivelmente derivadas de tradições dessa região como, por exemplo, o dilúvio. Os autores da Antiguidade como Heródoto, Beroso, Estrabão e Eusébio também fazem referências à Mesopotâmia. Por isso ao estudar a Mesopotâmia deve-se atentar para a construção de uma proto-história baseada em evidências fragmentadas e esparsas, já que as escavações só se iniciaram a partir do século XIX, e ainda hoje muitas lacunas estão expostas.

domingo, 5 de dezembro de 2010

RAMSÉS II, O GRANDE


RAMSÉS II, O GRANDE, foi o terceiro rei da XIX dinastia que compõe o Império Novo do Egipto, sucessor de Séti I, governou no século XIII (1279 a 1213 a. C.) e teve o segundo maior e mais prestigioso reinado da história egípcia tanto no aspecto económico, administrativo, cultural e militar. Ramsés II é lembrado pelas monumentais construções espalhadas por todo o Egipto em sua honra. Coube a este faraó disputar a Síria aos Hititas num longo conflito (1295/1279 a.C.) que culminou num acordo egípcio-hitita. Desta luta destaca-se a batalha de Cadés, quando os Hititas tentaram ocupar o Egipto. O tratado de 1279 foi gravado nas paredes do templo de Ámon em Carnac e no de Ramesseum em Tebas. A segunda metade do seu reinado foi mais pacífica e dedicada às grandes construções em Abidos, Carnac e Tanis que fez capital do Império. Restaurou muitos dos templos do vale do Nilo como o Speos de Ibsambul, na Nubia, o Ramesseum de Tebas e metade do templo de Luxor, mas mandou apagar os nomes dos seus predecessores para os substituir pelo seu.

Ramsés II era filho do faraó Seti I e da rainha Touya.
Seti I era filho do primeiro rei da dinastia Ramséssida, filho de Ramsés I e da rainha Sitré.
Ramsés I era vizir e general confidente do anterior faraó Horemheb que o nomeou como seu sucessor por não ter deixado descendência.
Horemheb é muitas vezes considerado como o primeiro faraó da XIX dinastia, contudo as ligações familiares de Horemheb colocam-no como o último faraó da XVIII dinastia egípcia. De facto, a sua ascensão ao trono foi legitimada pelo casamento com Mutnedjmet, filha de anterior faraó-sacerdote Ay e irmã de Nefertiti, Grande Esposa Real de Akhenaton. Seti I provem, assim, de uma linhagem nobre, de grandes comandantes militares. O seu avô, Seti, era um comandante oriundo do Delta. A mãe de Seti, Sitré (Filha de Ré) era também uma nobre de nome Tia.

Aos dez anos Ramsés II recebeu o título de "filho primogénito do rei", o que correspondia a ser declarado como herdeiro do trono. O seu pai introduziu-o no mundo das campanhas militares quando era ainda um adolescente, tendo Ramsés II acompanhado o seu pai em campanhas contra os Líbios e em campanhas na Palestina.
Julga-se que pelo menos dez anos antes da morte do pai, Seti I, Ramsés já era casado com Nefertari e Isitnefert. A primeira seria a mais importante e célebre das várias esposas que Ramsés II teve na sua vida, tendo sido a grande esposa real até à sua morte, no ano 24 do reinado de Ramsés. Nefertari, que possui o túmulo mais famoso do Vale das Rainhas, deu à luz o primeiro filho de Ramsés, Amenhotep, conhecendo-se pelo menos mais três filhos e duas filhas de ambos. As pesquisas mostram que Ramsés teve 6 filhos.4 meninos e 2 meninas.

Isetnefert é menos conhecida que Nefertari, estando a sua presença melhor atestada no Baixo Egipto. Com ela, Ramsés teve um filho que partilhava o seu nome, para além dos príncipes Khaemuaset e Merenptah. Este último tornou-se o seu sucessor devido à morte prematura dos filhos mais velhos de Ramsés. Khaemuaset foi sumo-sacerdote de Ptah na cidade de Mênfis e foi responsável pela organização das festas Sed celebradas em honra do pai. A festa Sed celebrava-se em geral no trigésimo aniversário de reinado do faraó e visava simbolicamente regenerar o seu poder; sabe-se que Ramsés celebrou catorze festas deste tipo, a primeira no ano 30, as seguintes num intervalo de cerca de três anos e no final da sua vida celebrou várias praticamente todos os anos. Khaemuaset era um amante de antiguidades e dedicou-se a mandar restaurar vários edifícios. Foi também responsável por mandar construir galerias subterrâneas em Sakara, onde eram sepultados os bois de Ápis.

Ramsés foi também casado com a sua irmã mais nova Henutmiré - segundo alguns autores seria sua filha em vez de irmã - e com três das suas filhas, Meritamon, Bentanat e Nebet-taui.
Após a paz com os Hititas, Ramsés recebeu uma filha do rei Hatusilli III como presente com a qual casou no ano 34 do seu reinado; o seu nome original é desconhecido, mas sabe-se que adoptou o nome egípcio de Maathorneferuré. Sete anos depois deste casamento casou com outra princesa hitita, sobre a qual nada se sabe.
Para além destas esposas, Ramsés tinha o seu harém. Da união com estas várias mulheres terão resultado mais de 150 filhos, sepultados num enorme túmulo colectivo do Vale dos Reis.

Ramsés sucedeu ao pai em 1279 ou 1278. No plano internacional os Hititas, que viviam no que é hoje a Turquia, surgem como rivais do império egípcio no corredor sírio palestiniano.
No ano 4 do seu reinado, Ramsés conduz uma expedição militar exploratória que alcança a Fenícia. No rio Cão, perto da moderna Beirute, manda erguer uma estela, cujo texto é hoje ilegível.
No ano seguinte inicia-se a guerra propriamente dita com os Hititas. Ramsés atravessa a fronteira egípcia em Sila e um mês depois chega aos arredores da cidade de Kadesh, perto do rio Oronte, com o objectivo de expulsar os Hititas do norte da Síria.
O exército egípcio estava dividido em quatro unidades, cada uma das quais recebia o nome de um deus da mitologia egípcia: Amon; Ré ou Rá; Ptah e Set.

O exército aguardou nos arredores de Kadesh, desejoso por cercar a cidade. Dois hititas que se apresentam como desertores, mas que na realidade são espias, enganam os egípcios, afirmando que os Hititas ainda estão bem longe de Kadesh. Ramsés decide então avançar com a unidade de Amon que lidera, desconhecendo que os Hititas estavam escondidos a leste de Kadesh. Subitamente, a unidade de Amon é cercada pelos Hititas.
Segundo o relato egípcio, o "Poema de Kadesh" gravado nas paredes dos templos de Karnak, Luxor, Abido, Abu Simbel e no Ramesseum, Ramsés é abandonado pelos seus soldados e fica frente a frente sozinho na sua carruagem perante os Hititas. O rei sente-se desolado por ter sido abandonado e faz uma prece a Amon, lamentando-se pelo seu destino. Amon escuta a prece de Ramsés e Ramsés transforma-se num guerreiro todo-poderoso que enfrenta completamente sozinho os Hititas.

A realidade, porém, encontra-se distante deste relato irreal ao serviço da propaganda faraónica. Julga-se que os egípcios foram obrigados a recuar, não tendo tomando Kadesh, tendo os reforços chegado a tempo de o salvar.
Nos próximos anos do reinado continuam os combates com os Hititas na Síria e Palestina. No ano 16 do reinado de Ramsés,  Mursili III, filho mais novo de Muwatalli II, foi deposto pelo seu tio Hatusilli III. Após várias tentativas de recuperar o trono, Mursili foge para o Egipto. Hatusilli III exigiu a sua deportação imediata, mas como esta foi recusada por Ramsés, os Hititas mantinham mais um motivo para continuarem com a sua hostilidade.

No ano 21 do reinado de Ramsés um tratado de paz procura terminar o conflito. Este tratado é conhecido nas suas duas versões, a hitita, escrita em tabuinhas de argila em cuneiforme babilónio e encontrada em Boghaz-Koi e a egípcia que foi gravada em duas estelas em Tebas. As razões para o tratado estariam relacionadas não só com a não resolução do conflito, mas também com o receio que gerasse a ascensão da Assíria. Nos termos do tratado os dois impérios prometem ajudar-se em caso de agressão externa e dividem zonas de influência: a Palestina fica sob domínio egípcio e a Síria para os Hititas.

Ramsés é o faraó que deixou o maior legado em termos de monumentos. O soberano apropriou-se de obras de faraós do passado, incluindo dos faraós do Império Antigo, mas sobretudo do faraó Amen-hotep III, que apresentou como suas, mandou concluir edifícios e lançou as suas próprias obras. Entre as obras concluídas por Ramsés II encontram-se a sala hipostila do templo de Karnak em Tebas e o templo funerário do seu pai em Abido.
Foi também Ramsés um dos responsáveis pela destruição dos templos da cidade de Amarna, que eram os últimos vestígios da era de Akhenaton, faraó que pretendia fazer de Aton a divindade suprema. Os blocos de pedra destas estruturas foram reutilizados na cidade de Hermópolis Magna, situada na margem oposta de Amarna.

Pi-Ramsés ou Per-Ramsés "A Casa de Ramsés" foi a capital do Egipto durante o reinado de Ramsés e até ao fim da XX dinastia. Não foi descoberta até ao momento a localização exacta da cidade, mas sabe-se que era na região oriental do Delta.
A cidade foi erguida sobre uma aglomeração fundada por Seti I no começo do reinado de Ramsés. Para lá foram transferidos obeliscos e nela se erguem templos dedicados às principais divindades egípcias, como Amon, Ré e Ptah. Dois séculos depois as suas estátuas e os obeliscos da cidade foram transferidos para Tanis, a nova capital da XXI dinastia.
As razões que explicam esta mudança de capital são as raízes familiares do faraó na região do Delta, para além da sua localização estar mais próxima do principal centro de intervenção militar desta época, a Síria-Palestina, que separava o Egipto dos hititas.

Na Núbia Ramsés mandou construir vários templos. Dois dos mais famosos, escavados na rocha, encontram-se em Abu Simbel, perto da segunda catarata do Nilo.
O maior destes dois templos (Grande Templo ou Templo de Ramsés) penetra sessenta metros na rocha. É dedicado a Ramsés, associado a Amon-Ré, Ptah e Ré-Horakhti. Possui na entrada quatro estátuas de Ramsés com mais de 20 metros de altura, que o retratam em diferentes fases da sua vida. Passada a entrada do templo encontra-se uma sala hipostila onde se acham oito estátuas de Osíris. A versão egípcia da Batalha de Kadesh está representada no templo. O segundo pequeno templo, a norte do Grande Templo, é dedicado a Nefertari, associada a Hathor. Na sua fachada encontram-se quatro estátuas de Ramsés e duas de Nefertari.

Abu Simbel permaneceu soterrada pelas areias do deserto até 1812, ano em que foi descoberta por Jean-Louis Burckhardt. A construção da grande barragem de Assuão alterou o nível das águas do Nilo, razão pela qual os templos foram desmontados, cortados em 1036 blocos e montados num local mais alto entre os anos de 1964 e 1968, numa campanha internacional promovida pela UNESCO.
Em Uadi es-Sebua Ramsés mandou construir um novo templo dedicado a Ré e a si próprio. Na direcção dos trabalhos esteve Setau, vice-rei da Núbia, que recrutou homens das tribos locais para a construção. No mesmo local Ramsés ordenou a reconstrução de um templo erguido por Amen-hotep III que fora danificado durante a era de Amarna.
O templo funerário de Ramsés é conhecido como o Ramesseum.

Situado na margem ocidental de Tebas estava dedicado ao deus Amon e ao próprio faraó, encontrando-se hoje num estado bastante deteriorado. O templo era famoso pela estátua colossal de Ramsés em posição sentada, da qual apenas restam fragmentos. Nas paredes do templo foram representados eventos como a Batalha de Kadesh e a celebração da festa do deus Min, assim como uma procissão dos numerosos filhos do faraó. No local foi descoberto um papiro que continha a obra literária "Conto do Camponês Eloquente" e textos de carácter médico.

Ramsés faleceu no ano 67 do seu reinado, quando já teria mais de noventa anos. O Egipto conseguiu continuar a exercer controlo sobre a Palestina até a parte final da XX dinastia.

O túmulo de Ramsés foi construído no Vale dos Reis,  necrópole de eleição dos faraós do Império Novo, tendo sido preparado pelo seu vizir do sul, Pasar. Embora seja maior que o túmulo do seu pai, o túmulo não é tão ricamente decorado e encontra-se hoje danificado. Do seu espólio funerário restam poucos objectos, que estão espalhados por vários museus do mundo.
A múmia do faraó foi encontrada num túmulo colectivo de Deir el-Bahari no ano de 1881. Em 1885 a múmia foi colocada no Museu Egípcio do Cairo onde permanece até hoje. Em 1976 a múmia de Ramsés realizou uma viagem até Paris onde fez parte de uma exposição dedicada ao faraó e onde foi sujeita a análises com raios X. Na capital francesa uma equipe composta por cento e dez cientistas foi responsável por tentar descobrir as razões pelas quais a múmia se degradava progressivamente. Os cientistas atribuíram esta degradação à acção de um cogumelo, o Daedela Biennis, que foi destruído com uma irradiação de gama de cobalto 60. As análises revelaram que Ramsés sofria de doença dentária e óssea.